sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Aborto (s) Instantâneo (s)

Esses dias me peguei pensando, pensando, imaginando se cada vez que as pessoas desistissem de algo, antes de tentar, fossem como abortos instantâneos;
-Esse texto tá ficando uma droga, não adianta; aborto instantâneo.
-Eu não vou conseguir esse emprego; aborto instantâneo.
-Esse relacionamento não vai ter chance; aborto instantâneo.
Me senti aflito, afinal, quanta coisa morre antes mesmo de nascer, antes de ter a chance de efetivamente “ser”;
Os espermatozóides, os amores, os sonhos, as poesias.

Depois da aflição, o alívio... Lembrar que tem gente que tenta;
Gente que passa até nove meses envolto em placenta.
Gente que mata leões todos os dias e segue em frente;
Gente que ama e não se vende, não se rende.
Talvez por que lá no fundo do seu âmago saiba, ao espontâneo, que a vida é feita sim de muitos fracassos, mas nenhum aborto instantâneo.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Amor vs. Paixão

Na paixão a gente procura rostos e corpos simétricos, para uma vida completamente assimétrica.
Procura calor de chama, mesmo que a brasa dure mais.
Não pensa na quantidade de noites frias ao longo dos anos, pensa só na intensidade da noite mais fria.
Mas o amor não é paixão fervorosa que se vive na intensidade, onde se esfola os lábios e o corpo na mais ardil interação.
O amor é calmo, tranqüilo, contínuo, mas nem sempre constante. E isso é o bastante.

“Amar é Punk!!”


segunda-feira, 25 de julho de 2011

Mariposa (s) sem asa (s)




Por ser sempre desajeitado, todas as coisas que Edward tentava segurar caíam. Os brinquedos, os amigos, os amores.
Ouvia comentários alheios de que tinha dedos podres.
Mas tinha absoluta certeza de que as coisas eram sim bem escolhidas. Porém lhe parecia que, toda vez que havia conseguido agarrá-las, escorregavam ou eram feridas.
Olhando-as tortas, murchas, feias;
Edward se sentia como mariposas sem as asas.
Mariposas que olham para o ar, sem naquela imensidão poder voar.
Certa vez, numa noite fria observou uma delas de perto, acima da porta de sua casa. Ed viu que estava recolhida, parecia que esperava apenas pela morte.
Triste, e a exemplo dela, ele faz o mesmo. Não saía mais de sua casa, completamente acobertado na cama, passando o tempo em profundas abstinências.
Um dia, após ouvir um barulho do lado de fora, Edward, que estava jogado em seu sofá, abriu os olhos e enxergou por um buraco que havia se aberto entre as cobertas, avistou por uma janela lateral o que parecia ser alguém deixando duas luvas e um bilhete.
Curioso e fazendo grande esforço para levantar-se e deslocar-se até lá, leu o que no bilhete estava escrito: “Este par de luvas são para proteger você, de todas as vezes que as coisas não derem certo e você quiser culpar a si mesmo”.

Querendo alcançar rápido quem havia lhe dado aquilo, já quase correndo em direção à rua, mas percebendo que algo estava para cair ao chão, num reflexo súbito, ele estende a mão e, desta vez, segurando firme e com cuidado, ele impede a queda de algo que sua mão acolhia.
Abrindo-a meticulosamente, ainda sem luva, avistou primeiramente um casulo, e dele saindo uma mariposa que abria lentamente imensas e exuberantes asas, conseguindo completar sua metamorfose ali, pelas suas próprias mãos;
Se pondo a bater as asas e então alçar voo, sai, saudável, imponente e com uma beleza indescritível, como se fosse um reflexo da primeira coisa avistada, ela e ele, Edward, a partir daquele momento.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Prato do dia

-Olá, pois não, senhor?
-Qual a sugestão do dia, por favor?
-Temos hoje coração ao molho pardo ou fígado ao vinho.
-Ahn... E essas porções, são individuais ou dá pra dividir?
-Elas são individuais, mas dá pra dividir sim, se preferir.
-Hmm, acho que é melhor mudar, variar. Me veja então uma porção de honestidade, de decência e uma de cumplicidade também, para acompanhar.
Ah, e coloque mais um prato à mesa por favor, eu vou esperar...

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Carta ao passado

Prezado Passado;


É por meio desta carta que venho me despedir de você. Não julgue mal, não é por medo ou desavença. Mas como bem sabe, não posso mais com sua presença.
Tem alguém agora em minha vida, o Presente. E não dá mais pra você ficar entre a gente.
Eu sei que você não poderia voltar, mas aviso mesmo assim, pra não perder a viagem, pois to indo pra um outro lugar.
Ouço falar muito bem de lá, que é bonito, que tem mais oportunidades que cá.
Futuro é o nome da redondeza, o endereço ainda não tenho certeza.
Quero te dizer que não guardo rancor ou mágoa pelas vezes que me fez sentir mal, mesmo, sem maldade. Sei que você não poderia mudar, mas eu mudei. Estou (me) mudando na verdade.
Também não temos por que perder contato. Não vou esquecer nunca os melhores momentos, ao contrário, sou grato.
A Memória, aquela que simpatiza com você, faz sempre questão de me lembrar.
Mas você já sabia que precisaria me deixar ir um dia, e bem, tá na hora, eu to indo e não posso mais voltar.

Com carinho;





 C.A.G..M.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Sem/Cem anos de perdão

Era numa cidade média, do interior.
Ouvia-se falar muito, um menino que roubava corações.
Daqueles, de sede insaciável e olhos sempre famintos.
Diziam que fazia por mal, que não cresceu pra ser homem bom. Que não tinha nada de passional, que não tinha esse dom.
Ele, na verdade, se alimentava de corações, dos recheios dos corações.
Mas parecia no fundo vazio, como se o que encontrasse nunca fosse o bastante.
Roubava por que não tinha nada pra dar em troca, roubava por que não era possível comprar.
Tomava para si o que arrancava do peito e não devolvia mais.
Não é que não quisesse, mas é que quando se dava conta de entregar, já havia consumido tanto que só deixava cascas, lascas, raspas...
Roubava, por que não achava que tivesse outra opção. Roubava por que era visceral, mas não por que era marginal, e nem ladrão.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Platônico

Não era homem feito, mas não era mais piá. Era um rapaz já...
Ainda não demonstrava ter coragem, ou deveria dizer "covardia", para abandonar sonhos infantis.
Mas não apresentava mais também aquele descontrole juvenil, se é que um dia o sentia.
Era moço de natureza simpática e educada, saía por aí a distribuir abraços. Como se fosse o que qualquer um precisasse.
Coisa curiosa essa de abraçar e ser abraçado junto, quando tem alguém que abrace.

Sempre prestativo e solícito, até mentia que sabia dizer não, tendo a esperança de não ser testado e cair em contradição. Por todas as vezes que coisas lhe foram negadas, pela vida ou por própria pressão, era como se fosse obrigado, como se fosse compensação.

Distribuía abraços, talvez não soubesse pedi-los.
Coisa curiosa essa de ser abraçado, como recebimento de inumeráveis “sim”, mesmo que ainda não ditos...

Era bonito, não se achava o bastante.
Era inteligente, não se achava o bastante.
Era divertido... Não se achava o bastante.
Nas tentativas de achar, perdia, se perdia...
Mas que coisa curiosa é essa de abraçar ao ser abraçado. É como se encontrar, mesmo não conhecendo o lugar.

Timidez definitivamente não lhe impedia, ainda distribuía abraços. Quem sabe era nessas horas que selava laços.
E que coisa curiosa essa de ser abraçado. É como ser revigorado, mesmo diante do cansaço.

Fazia do altruísmo obrigação, pelos pecados que não cometia não.
Abraçava; como se isso pudesse servir como a mais protetora escolta.
Abraçava muito, como se isso contivesse qualquer revolta.
Mas que coisa é essa, mais do que curiosa, de não ser abraçado de volta...

terça-feira, 14 de junho de 2011

"Em obras"

A intensidade de sorrir constrói alegria, e a do descaso, escassez.
A de olhar constrói ligação, a de barrar constrói abismos.
A intensidade da vontade constrói portas; E a da preguiça, o labirinto.
A do carinho constrói o contato; E a da frieza constrói o retardo.
A intensidade da verdade constrói confiança; A da mentira, a ignorância.
A do abraço constrói o afago; E a do descuido constrói o espaço.
A  intensidade de amar constrói o que é raro; constrói o que é caro.
Constrói o amor, em volume máximo.

domingo, 12 de junho de 2011

É por quê?

É sobre dois corpos, e não dois travesseiros na cama.
É pelas promessas não ditas, não pelas palavras boca à fora.
É por causa da saudade, não pelo abraço ou beijo habitual.
Por causa das risadas e sorrisos, mais do que qualquer choro.
É sobre cantar em coro... Sem violão e mesmo que não haja canção.
É ir avante, mesmo quando o sinal amarelar.
É sobre as lembranças passadas, não o(s) presente(s).
O risco e não a garantia.
É não precisar de bebida. E mesmo assim estar inebriado.
Não é por causa da cabeça vazia, é por causa do coração encharcado.
Nem é sobre pulmões, é sobre o ar.
Não são os pássaros, é o céu.
Não é por causa das desavenças e nem das desesperanças.
É por causa das diferenças, mas é também, especialmente talvez, pelas semelhanças.
Não é por mim, nem é por você na verdade.
É por um pronome só, que contém dois.
É, por que é aquilo... e não outra coisa.

sábado, 11 de junho de 2011

Memórias póstumas de uma alfafa

Antes eram erros de português, agora nem erros e nem acertos.
Antes eram as mãos nos cabelos, agora num teclado frio.
Agora é sério, o que era riso.
Agora aquilo é isso, é isso...
Das palavras imponentes ao silêncio submisso.
Corrosivo e subversivo, dentro de um broto que só queria brotar...

terça-feira, 7 de junho de 2011

O Senhor da Razão

Ainda não encontrei sujeito mais curioso que o Senhor Tempo... Deixa saudade quando passa, mas deixa mais saudade ainda quando se espera por ele e o mesmo não passa, não chega.
Não importa o quanto você queira que ele pare na sua frente, quanto mais você deseja isso, mais ele corre.
Quanto mais você desejar que ele corra, mais ele vai andar devagar.
Ele te ajuda quando você menos espera, e te abandona quando você mais chama por ele.
Ele bagunça tudo às vezes, faz tudo como bem entende, é do contra, desobediente.
Parece até incoerente.
Te cura as feridas, mas te dá um empurrão... O tombo, bem, o tombo é com você mesmo.
Ele quer na verdade é que andemos junto com ele, lado a lado, sem apostar nada. Até por que se fossemos apostar, teria que ser na própria derrota.
Mas tenha certeza, você pode nem perceber e de repente ele voa, quando ele passa, ele nunca passa à toa...

quinta-feira, 2 de junho de 2011

A máquina de moer

Eu moí e  remoí todo o meu passado.
Depois vi tudo que, 
mesmo descompassado, havia sobrado.
Disso tudo eu sou farelo, sou pó, somos pó...
O presente é que é o elo...  O martelo;
Que arrebata o que passa, que arrebita o que está por vir.
O martelo somos nós, e são os "pós".

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Do tipo que eu (não) seria

Eu poderia ser alguém de um tipo mais prático. Eu gostaria de ser do tipo mais objetivo.
Gostaria de ser do tipo que deixa o que é passado no passado; Ser do tipo despreocupado.
Do tipo que age rápido e ajeita o que tem de errado.
Ou ainda, poderia ser do tipo fanático; Do tipo que morre de amor no ato, assim, como lunático.
Quiçá ser do tipo romântico, piegas; Aquele tipo que só janta à luz de velas e vive de amor e beijos doces  nas esquinas de vielas.
Ser do tipo que se entrega, não espera, não dá trégua.
Do tipo que nem pensa (,) que tem crença.
Eu poderia ser até do tipo que ri (,) do tipo que não chora.
Poderia ser ainda do tipo "faz de conta" (,) que não se desaponta.
Eu só não deveria ser do tipo que sonha, jamais seria do tipo que sonha.
Deveria ser do tipo (,) "numa boa"; deveria ser do tipo que voa...

domingo, 29 de maio de 2011

"Literatura Interativa"

Quando falamos sobre amigos é preciso ter cuidado...
É como se abríssemos um livro, com textos que iremos admirar, com trechos para nos guiar.
A gente conta com eles quando vai fazer algo que tenha alguma relevância, para nos "instruir".
Algumas vezes são puramente informativos, outras vezes são doces e nos dizem o que QUEREMOS ouvir, mas outras vezes podem ser rudes, quando nos dizem o que PRECISAMOS ouvir.
Existem os antigos, os novos, os estacionários, os revolucionários...
Alguns são mais requisitados, acredito que isso tem a ver com as "fases" que vamos atravessando e não com a simples adoração/preferência de um ou outro.
O fato é que, de alguma forma, em algum momento, nos identificamos com todos, seja pela mensagem que passam, pela maneira como estão "escritos" ou pelo tema. Mas, mais do que isso, por nos fazerem bem...
Quando eu quero ler sobre romances, aventuras, suspense, 'autoestima', drama, ficção, ciência, atualidades, filosofia, fantasia, ou o que quer que seja, eu consulto a minha biblioteca particular. Um singular, magnífico e diversificado acervo.
Então eu chego à conclusão que eu tenho os melhores livros que qualquer leitor poderia querer. E apesar de talvez não saber exatamente tudo sobre eles, nunca me arrependi de ter passado das simples capas que aparentavam
Eu sonho junto, eu me aventuro junto, eu sinto medo junto, eu choro, eu rio, eu leio e sou lido junto.