quinta-feira, 30 de junho de 2011

Sem/Cem anos de perdão

Era numa cidade média, do interior.
Ouvia-se falar muito, um menino que roubava corações.
Daqueles, de sede insaciável e olhos sempre famintos.
Diziam que fazia por mal, que não cresceu pra ser homem bom. Que não tinha nada de passional, que não tinha esse dom.
Ele, na verdade, se alimentava de corações, dos recheios dos corações.
Mas parecia no fundo vazio, como se o que encontrasse nunca fosse o bastante.
Roubava por que não tinha nada pra dar em troca, roubava por que não era possível comprar.
Tomava para si o que arrancava do peito e não devolvia mais.
Não é que não quisesse, mas é que quando se dava conta de entregar, já havia consumido tanto que só deixava cascas, lascas, raspas...
Roubava, por que não achava que tivesse outra opção. Roubava por que era visceral, mas não por que era marginal, e nem ladrão.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Platônico

Não era homem feito, mas não era mais piá. Era um rapaz já...
Ainda não demonstrava ter coragem, ou deveria dizer "covardia", para abandonar sonhos infantis.
Mas não apresentava mais também aquele descontrole juvenil, se é que um dia o sentia.
Era moço de natureza simpática e educada, saía por aí a distribuir abraços. Como se fosse o que qualquer um precisasse.
Coisa curiosa essa de abraçar e ser abraçado junto, quando tem alguém que abrace.

Sempre prestativo e solícito, até mentia que sabia dizer não, tendo a esperança de não ser testado e cair em contradição. Por todas as vezes que coisas lhe foram negadas, pela vida ou por própria pressão, era como se fosse obrigado, como se fosse compensação.

Distribuía abraços, talvez não soubesse pedi-los.
Coisa curiosa essa de ser abraçado, como recebimento de inumeráveis “sim”, mesmo que ainda não ditos...

Era bonito, não se achava o bastante.
Era inteligente, não se achava o bastante.
Era divertido... Não se achava o bastante.
Nas tentativas de achar, perdia, se perdia...
Mas que coisa curiosa é essa de abraçar ao ser abraçado. É como se encontrar, mesmo não conhecendo o lugar.

Timidez definitivamente não lhe impedia, ainda distribuía abraços. Quem sabe era nessas horas que selava laços.
E que coisa curiosa essa de ser abraçado. É como ser revigorado, mesmo diante do cansaço.

Fazia do altruísmo obrigação, pelos pecados que não cometia não.
Abraçava; como se isso pudesse servir como a mais protetora escolta.
Abraçava muito, como se isso contivesse qualquer revolta.
Mas que coisa é essa, mais do que curiosa, de não ser abraçado de volta...

terça-feira, 14 de junho de 2011

"Em obras"

A intensidade de sorrir constrói alegria, e a do descaso, escassez.
A de olhar constrói ligação, a de barrar constrói abismos.
A intensidade da vontade constrói portas; E a da preguiça, o labirinto.
A do carinho constrói o contato; E a da frieza constrói o retardo.
A intensidade da verdade constrói confiança; A da mentira, a ignorância.
A do abraço constrói o afago; E a do descuido constrói o espaço.
A  intensidade de amar constrói o que é raro; constrói o que é caro.
Constrói o amor, em volume máximo.

domingo, 12 de junho de 2011

É por quê?

É sobre dois corpos, e não dois travesseiros na cama.
É pelas promessas não ditas, não pelas palavras boca à fora.
É por causa da saudade, não pelo abraço ou beijo habitual.
Por causa das risadas e sorrisos, mais do que qualquer choro.
É sobre cantar em coro... Sem violão e mesmo que não haja canção.
É ir avante, mesmo quando o sinal amarelar.
É sobre as lembranças passadas, não o(s) presente(s).
O risco e não a garantia.
É não precisar de bebida. E mesmo assim estar inebriado.
Não é por causa da cabeça vazia, é por causa do coração encharcado.
Nem é sobre pulmões, é sobre o ar.
Não são os pássaros, é o céu.
Não é por causa das desavenças e nem das desesperanças.
É por causa das diferenças, mas é também, especialmente talvez, pelas semelhanças.
Não é por mim, nem é por você na verdade.
É por um pronome só, que contém dois.
É, por que é aquilo... e não outra coisa.

sábado, 11 de junho de 2011

Memórias póstumas de uma alfafa

Antes eram erros de português, agora nem erros e nem acertos.
Antes eram as mãos nos cabelos, agora num teclado frio.
Agora é sério, o que era riso.
Agora aquilo é isso, é isso...
Das palavras imponentes ao silêncio submisso.
Corrosivo e subversivo, dentro de um broto que só queria brotar...

terça-feira, 7 de junho de 2011

O Senhor da Razão

Ainda não encontrei sujeito mais curioso que o Senhor Tempo... Deixa saudade quando passa, mas deixa mais saudade ainda quando se espera por ele e o mesmo não passa, não chega.
Não importa o quanto você queira que ele pare na sua frente, quanto mais você deseja isso, mais ele corre.
Quanto mais você desejar que ele corra, mais ele vai andar devagar.
Ele te ajuda quando você menos espera, e te abandona quando você mais chama por ele.
Ele bagunça tudo às vezes, faz tudo como bem entende, é do contra, desobediente.
Parece até incoerente.
Te cura as feridas, mas te dá um empurrão... O tombo, bem, o tombo é com você mesmo.
Ele quer na verdade é que andemos junto com ele, lado a lado, sem apostar nada. Até por que se fossemos apostar, teria que ser na própria derrota.
Mas tenha certeza, você pode nem perceber e de repente ele voa, quando ele passa, ele nunca passa à toa...

quinta-feira, 2 de junho de 2011

A máquina de moer

Eu moí e  remoí todo o meu passado.
Depois vi tudo que, 
mesmo descompassado, havia sobrado.
Disso tudo eu sou farelo, sou pó, somos pó...
O presente é que é o elo...  O martelo;
Que arrebata o que passa, que arrebita o que está por vir.
O martelo somos nós, e são os "pós".