segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Sobre as vozes que não falam




Os corações intactos são geralmente jovens, altivos e pulsantes.
São alegres, inocentes, confiantes...

Corações estilhaçados não.
São rechaçados, violentes, violados.
... minguados, rijos, desconfiados.

Pensei como seria se eu pudesse perguntá-los: “por que batem?”. E algumas respostas me vieram à minha mente:

“ - Coração intacto, por que você bate?”.
“ - Eu bato, leve e rápido, para que batam por mim um dia”.

“ - E você, coração estilhaçado, por que bate?”.
“ - Eu bato, bato devagar e pesado, por que um dia bateram por mim”.

Há quem prefira os corações intactos. Puros, não quebrados.

Eu não, ainda prefiro os corações estilhaçados. Rechaçados, desperdiçados, despedaçados. Não por pena, mas é que estes aprenderam, a cada queda, o quanto custa para ser (em) consertado (s).

terça-feira, 12 de junho de 2012

Um recado ao 'Futuro'...


Não precisa ser pra sempre. Leve o tempo que for, mas o tempo que levar que não pareça “em vão”;
Que, mesmo quando for o mais intensamente ácido, seja igualmente doce então.
 
Que seja gentil, ainda quando for selvagem;
E que corte forte e profundo com a verdade, mas que não veja na mentira vantagem.
 
Que tenha seus altos e que tenha seus baixos, mas que não faça da vida uma gangorra;
Que não faça com que qualquer 'suado' equilíbrio ou estabilidade (es)corra.
 
Que na sua balança não haja “pesos” a contar;
E que o valor das coisas seja maior nas mais simples, em primeiro lugar.
 
Que traga frescor em dias quentes como o inferno e calor em qualquer fria e escura noite...
  
Que não seja melhor ou pior que o passado, mas fica aqui o recado, que seja diferente;
Quando a hora chegar, que seja aquilo que se pode esperar, de verdade, que seja 'presente'.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Bilhete de um arauto de Morfeu



Às vezes, tudo que se quer é que, mesmo por um instante, o chão seja de papel, pra não se esborrachar.
Mas que besteira seria essa?!
  
A gente sempre vai se machucar.
 
O melhor que podemos fazer é mudar, para nós mesmos cairmos como um papel, àquele que se abre o máximo possível pra no próximo vento alçar vôo novamente.
 
Não adianta dizer para os pés não pisarem na próxima nuvem, ou querer prever que o mar em que vamos nos jogar vai estar completamente congelado.
 
Você pode fechar os olhos o quanto quiser e pode dormir o quanto quiser.
 
Mas até quem não tem mais a dádiva da visão sabe, quando não se faz nada para mudar as coisas, elas continuam exatamente no mesmo lugar onde sempre estiveram.
 
E a gente não sonha que vive. A gente pode até fingir que não sonha; Só não pode fingir que não vive.
 
E não dá pra continuar fingindo que não se sonha, vivendo...
 
Talvez a gente só esteja vivo mesmo por que sonha, muito, e talvez só por isso continua assim, sendo...
 

segunda-feira, 12 de março de 2012

Robot (Na linha de montagem)

Uma peça a mais, um parafuso a menos.

Quanto mais se sentia vivo, mais era tratado como brinquedo.
Teimava, dizia que era humano, que sentia dor e medo.

Logo depois, um fluído a mais, uns fios a menos.

Não adiantava, ainda acreditava ter tido sangue e coração em algum momento.
Era como se não fosse máquina, nem precisasse de conserto.

Inconformados, os controladores de qualidade atestaram: “Está fora do padrão, está com defeito”.
Por trás de toda aquela casca de metal teve uma bateria arrancada.

E então um parafuso a mais, uma peça a menos.

Por fim, os controladores de qualidade atestaram: “Pronto, agora está perfeito”.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Phoenix


De repente o mundo parecia ter parado por um momento e tava tudo assim, meio gris.

Sentiu como se estivesse regurgitando pó;
Um gosto amargo veio à boca e ao mesmo tempo uma imensa dor à tona.

Tudo tinha ficado frio, pálido e mudo. Frio, pálido, mudo e depois escuro;
Sentia como se estivesse se desfazendo aos poucos, em cinzas, pedaços, (t) ocos...

Se sentiu destemperado, descompassado, desconjuntado; Descontinuado.

Era como se tivesse deixado de existir por um instante;

De repente, por fim, uma queimação na garganta. E a pele ardia mais do que brasa em chama.

O mundo parecia começar a girar mais uma vez e era como se estivesse pegando fogo. E depois do fogo, todas as cores fossem brotando;

Depois disso, só um calor bom, calor das coisas vivas, um calor e som, dos batimentos que voltaram. Era como se sentisse que tudo novamente pela primeira vez. Era tudo novo, de novo.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Qualquer coisa que não isso


Era sempre ele e sua rede de caçar borboletas;

Ele sempre as admirava de longe, pensando no momento em que poderia as ter consigo;

Eram de belezas inigualáveis, tinham cores e cintilações indescritíveis;

Diziam que a sensação de tê-las no estômago era uma das coisas mais excepcionais da vida;

Por isso ele as engolia vivas. Não, não é que fosse um lunático. Queria mesmo era senti-las no estômago;

Ele, de fato, encontrava essa sensação de maravilha ao ter as borboletas no estômago, mas estranhava que uma dor equivalentemente intensa lhe deixava em prantos logo depois;

Algo estava errado, talvez não estivesse fazendo do jeito certo;

Não importava mais, com o passar do tempo deixou de ir à busca das tais borboletas;

Não, não tinha deixado de admirar sua beleza, nem deixado de desejar senti-las;

Só começou a pensar que talvez fosse melhor não tê-las mais dentro de si.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Estilhaço

Segurou, o mais firme que pôde...

Pressionou, até escorregar entre os dedos.
Caiu, e ao chão se quebrou.
Juntou os cacos, com cuidado, se cortou.
Havia sangue em suas mãos, havia sangue em seus olhos.
Mas um a um e, feito quebra-cabeças, colou.
No final de todas as contas percebeu que, no lugar de um pedaço, muito mais que um espaço, foi um buraco;

Aquilo que ficou.