Certa vez, há uns cinco anos, um carismático mercante de produtos
medicinais, de rosto branco feito papel e olhos esverdeados, ao ouvir lamúrias
minhas sobre a vida, me receitou um remédio para ‘toda e qualquer coisa’ que
dizia ser mágico, chamava de amor. A
princípio não me cobrou nada, só me dizia para aproveitar enquanto podia.
Desconfiado, demorei até aceitar a oferta.
Passados uns dois meses, mantendo distância, mesmo com certo frio na
barriga, eu resolvi então provar o produto de que tanto ouvia falar. Tinha
gosto de lábios no início, depois parecia mais com um pedaço de paraíso. Não
tinha bula, mas alucinógena e viciante era a fórmula. A dose só durava uma semana
e teoricamente não apresentava contraindicações ou efeitos colaterais. Até que,
um tempo mais tarde, eu percebi a dependência absurda que poderia causar e a
dor da abstinência, nos ossos, na carne, no peito, na alma...
Depois de aproximadamente dois anos em desintoxicação, encontrei
novamente o tal mercante, mas desta vez eu sabia exatamente o que iria me
custar se tomasse aquela droga de novo. Porém, vestindo agora um jaleco pomposo
e carregando importantes certificados, pensei eu que a receita dele podia,
desta vez, estar reformulada. Passada a semana de duração da dose, os efeitos
foram os mesmos.
Lembrei então do símbolo que havia em seu jaleco, não sei agora se era o
de Asclépio ou o de Hermes, mas havia nele uma ou duas serpentes, o que agora
teria um novo significado pra mim. O preço? Um veneno para o sono, confiança,
sorrisos e corações, além de toda a dor. Mas ouvi falar que existem também amores baratos por aí, que
‘toda e qualquer coisa’ serve como moeda de troca. Então desta vez fui bem mais preparado e
confiante para a desintoxicação, já faz mais de dois anos...