quarta-feira, 8 de maio de 2024

OUTONO


Como podem?
Folhas antes tão verdes, tão vivas, tão vistosas.
Cheias demais, cheias de si. Se sentindo presas aos braços, se põem a partir.
Velhas e amareladas, ao chão dançam deitadas.
Como se felizes fossem.
Enquanto o vento passa; seca, resseca, corta, feito foice.
Quando nem o vento houver, somente o silêncio e o frio ficam.
Não havendo mais movimento, onde nada mais dança.
Cuidado, braço estendido! Aí vem. Espera...

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Casa Grande, Casa Branca


Era uma vez uma casa grande, bonita, se via de longe que era muito imponente, pujante.
Era uma casa branca, um verdadeiro palácio em um planalto… Esbanjava beleza e conforto.

Havia nela muitas portas abertas, que podiam ser observadas por quem passava do lado de fora do muro de vidro reforçado, tudo com muita transparência.

Do lado de dentro, crianças de bochechas rosadas gastavam a energia que tinham com as mais diversas brincadeiras, sem muitas preocupações, vivendo uma infância normal.

Os meninos, muito bem vestidos com coletes de lã na cor azul marinho, exploravam todos os cômodos e o quintal, que era imenso.

Já as meninas, que usavam laços cor de rosa presos nos cabelos, tinham uma linda casa de bonecas para brincarem e não reclamarem das malcriações dos meninos, ainda que isto não os impedisse de invadir o espaço delas e quebrar suas regras.

Haviam mulheres se bronzeando junto às piscinas e homens sentados em grupos, tendo sérias conversas sobre assuntos importantíssimos para o futuro da humanidade e sobre como o mundo fora dali estava se tornando um lugar perigoso.

Haviam também muitos empregados que lá trabalhavam, que passavam o dia limpando a casa, cozinhando, cuidando crianças, mantendo tudo no seu devido lugar, para só à noite voltarem para seus lares.

Parecia agradável, à primeira vista, estar dentro daquele lugar. Haviam boas comidas, bebidas, bom humor, brincadeiras, bons papos. Haviam hortas e jardins bem cuidados, com flores, frutos e lagos.
Por dentro havia muito conforto também, muitos cômodos, suítes, salas imensas, com glamourosos sofás e poltronas, que até mesmo os charmosos pets” podiam escolher em quais repousar vez ou outra. Parecia haver paz, harmonia, acolhimento.

Bem, não foi esta a mesma sensação que tive quando, em um certo dia, fui convidado a entrar....

Certamente a casa oferecia, de fato, todos os privilégios e conforto que se podia observar de longe. Para um morador da casa não parecia tão pertinente se perguntar sobre a história de tal moradia, ou talvez não fosse tão interessante que se contasse tal história.

Para mim, curioso desde pequeno, era importante conhecer aquela casa que tanto parecia admirável, como havia sido construída, desde que época e etc. Comecei  a observá-la, com a atenção de quem nunca havia vivenciado tal experiência, e estudar alguns de seus detalhes...

Atentei para o fato de haver muitos livros que aparentavam nunca ter sido tocados e muitas luzes em lindos lustres que não estavam acesos.

Dentre as peças de decoração, cabeças de veados, exibidas como troféus de caça, me chamavam a atenção. Me chamavam a atenção também os diversos objetos feitos de marfim e ouro, as pedras e os metais preciosos, assim como os inúmeros tapetes existentes na casa (“persas”, egípcios, indianos e etc).

Na calada da noite, enquanto todos estavam dormindo, sem que ninguém pudesse atrapalhar minhas observações, resolvi olhar por debaixo de tais tapetes… Olhei logo o mais próximo do cômodo onde eu estava acomodado, e havia sujeira, muita sujeira. O provável é que estivesse acumulada por séculos.

Para além da sujeira, ao limpar melhor aquele assoalho de madeira abaixo do tapete, percebi brechas, fissuras, e logo notei que se tratava de um alçapão que levava a um andar subterrâneo, um porão. Abri tal porta e de imediato senti um dos cheiros mais desagradáveis que já conheci, só podia ser cheiro de morte, um cheiro de pavor e desespero.

Ao descer os degraus percebi que os mesmos eram feitos de ossos e, ao final da escada, vi que se tratava de um espaço que era baixo, onde só se podia ficar curvado entre o chão de tal porão e o chão do assoalho da casa, o chão da casa grande era, ao mesmo tempo, o teto do porão.

Ouvi vozes que pareciam de outro mundo, que até então não escutava. Gelei. Me diziam para cavar… Assustado, hesitei. Mas as vozes me diziam que a história da casa estava ali, que eu precisava desenterrar o passado, para entender aquele presente.

Cavei um pouco, encontrei roupas, pertences e artefatos de culturas até então desconhecidas por mim. Cavei mais um pouco, minhas mãos umedeciam um tanto. Sentia como se houvesse ali, combinada ao solo, uma mescla de suor, lágrimas, peles, nervos, carnes e sangue.

Parei. Tive medo do que poderia encontrar se escavasse um pouco mais.

A noite estava fria, o ar era difícil de respirar, o estômago embrulhava, a garganta dava nó. Pensei muito, parado no lugar, sem conseguir me movimentar.

Ouvindo mais uma vez as vozes, e meus próprios pensamentos, decidi escavar uma última vez, antes de ver o dia clarear, como sempre… Senti nas minhas mãos um pouco do peso dos corpos misturados à terra.

Ossadas inteiras (de homens, mulheres e crianças) estavam fundidas às fundações da casa, sustentando a superestrutura de toda aquela suntuosa residência, onde viviam seres humanos, livres e presos.

Quando o dia clareou, um dos donos da casa, o mais velho, avistou a porta aberta de tal porão e, me olhando de cima, foi fechando-a rapidamente, me partindo ao meio quando eu já estava a escapar.

Metade de mim morreu naquele porão, metade fugiu para o mais longe possível... Para que eu pudesse, então, ouvir novamente as vozes e ajudar a expor a história até agora não tão bem contada, na esperança de que tal casa seja derrubada e eu encontre outras partes de mim mesmo, podendo estar completo novamente.


sábado, 27 de julho de 2013

Em cada um de nós, um "cego"-

Há quem não contemple estrelas, de tanto olhar pra baixo.

Quem viva com o nariz pra cima apontado, tropeçando em qualquer passo.

Conheço gente que faz tudo parecer raso, fugaz, olhando sempre pro lado.

Gente que olha pra frente, sem tempo de olhar pro que é passado.

Olhando pra trás, fico pensando, quando é que devem ter se encontrado... Por aí, por acaso.

domingo, 9 de junho de 2013

A única droga que eu e TODO MUNDO um dia já provou (mesmo sem querer/dever)


Certa vez, há uns cinco anos, um carismático mercante de produtos medicinais, de rosto branco feito papel e olhos esverdeados, ao ouvir lamúrias minhas sobre a vida, me receitou um remédio para ‘toda e qualquer coisa’ que dizia ser mágico, chamava de amor.  A princípio não me cobrou nada, só me dizia para aproveitar enquanto podia. Desconfiado, demorei até aceitar a oferta.
Passados uns dois meses, mantendo distância, mesmo com certo frio na barriga, eu resolvi então provar o produto de que tanto ouvia falar. Tinha gosto de lábios no início, depois parecia mais com um pedaço de paraíso. Não tinha bula, mas alucinógena e viciante era a fórmula. A dose só durava uma semana e teoricamente não apresentava contraindicações ou efeitos colaterais. Até que, um tempo mais tarde, eu percebi a dependência absurda que poderia causar e a dor da abstinência, nos ossos, na carne, no peito, na alma...
Depois de aproximadamente dois anos em desintoxicação, encontrei novamente o tal mercante, mas desta vez eu sabia exatamente o que iria me custar se tomasse aquela droga de novo. Porém, vestindo agora um jaleco pomposo e carregando importantes certificados, pensei eu que a receita dele podia, desta vez, estar reformulada. Passada a semana de duração da dose, os efeitos foram os mesmos.
Lembrei então do símbolo que havia em seu jaleco, não sei agora se era o de Asclépio ou o de Hermes, mas havia nele uma ou duas serpentes, o que agora teria um novo significado pra mim. O preço? Um veneno para o sono, confiança, sorrisos e corações, além de toda a dor. Mas ouvi falar que existem também amores baratos por aí, que ‘toda e qualquer coisa’ serve como moeda de troca.  Então desta vez fui bem mais preparado e confiante para a desintoxicação, já faz mais de dois anos...

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Sobre as vozes que não falam




Os corações intactos são geralmente jovens, altivos e pulsantes.
São alegres, inocentes, confiantes...

Corações estilhaçados não.
São rechaçados, violentes, violados.
... minguados, rijos, desconfiados.

Pensei como seria se eu pudesse perguntá-los: “por que batem?”. E algumas respostas me vieram à minha mente:

“ - Coração intacto, por que você bate?”.
“ - Eu bato, leve e rápido, para que batam por mim um dia”.

“ - E você, coração estilhaçado, por que bate?”.
“ - Eu bato, bato devagar e pesado, por que um dia bateram por mim”.

Há quem prefira os corações intactos. Puros, não quebrados.

Eu não, ainda prefiro os corações estilhaçados. Rechaçados, desperdiçados, despedaçados. Não por pena, mas é que estes aprenderam, a cada queda, o quanto custa para ser (em) consertado (s).

terça-feira, 12 de junho de 2012

Um recado ao 'Futuro'...


Não precisa ser pra sempre. Leve o tempo que for, mas o tempo que levar que não pareça “em vão”;
Que, mesmo quando for o mais intensamente ácido, seja igualmente doce então.
 
Que seja gentil, ainda quando for selvagem;
E que corte forte e profundo com a verdade, mas que não veja na mentira vantagem.
 
Que tenha seus altos e que tenha seus baixos, mas que não faça da vida uma gangorra;
Que não faça com que qualquer 'suado' equilíbrio ou estabilidade (es)corra.
 
Que na sua balança não haja “pesos” a contar;
E que o valor das coisas seja maior nas mais simples, em primeiro lugar.
 
Que traga frescor em dias quentes como o inferno e calor em qualquer fria e escura noite...
  
Que não seja melhor ou pior que o passado, mas fica aqui o recado, que seja diferente;
Quando a hora chegar, que seja aquilo que se pode esperar, de verdade, que seja 'presente'.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Bilhete de um arauto de Morfeu



Às vezes, tudo que se quer é que, mesmo por um instante, o chão seja de papel, pra não se esborrachar.
Mas que besteira seria essa?!
  
A gente sempre vai se machucar.
 
O melhor que podemos fazer é mudar, para nós mesmos cairmos como um papel, àquele que se abre o máximo possível pra no próximo vento alçar vôo novamente.
 
Não adianta dizer para os pés não pisarem na próxima nuvem, ou querer prever que o mar em que vamos nos jogar vai estar completamente congelado.
 
Você pode fechar os olhos o quanto quiser e pode dormir o quanto quiser.
 
Mas até quem não tem mais a dádiva da visão sabe, quando não se faz nada para mudar as coisas, elas continuam exatamente no mesmo lugar onde sempre estiveram.
 
E a gente não sonha que vive. A gente pode até fingir que não sonha; Só não pode fingir que não vive.
 
E não dá pra continuar fingindo que não se sonha, vivendo...
 
Talvez a gente só esteja vivo mesmo por que sonha, muito, e talvez só por isso continua assim, sendo...