domingo, 9 de junho de 2013

A única droga que eu e TODO MUNDO um dia já provou (mesmo sem querer/dever)


Certa vez, há uns cinco anos, um carismático mercante de produtos medicinais, de rosto branco feito papel e olhos esverdeados, ao ouvir lamúrias minhas sobre a vida, me receitou um remédio para ‘toda e qualquer coisa’ que dizia ser mágico, chamava de amor.  A princípio não me cobrou nada, só me dizia para aproveitar enquanto podia. Desconfiado, demorei até aceitar a oferta.
Passados uns dois meses, mantendo distância, mesmo com certo frio na barriga, eu resolvi então provar o produto de que tanto ouvia falar. Tinha gosto de lábios no início, depois parecia mais com um pedaço de paraíso. Não tinha bula, mas alucinógena e viciante era a fórmula. A dose só durava uma semana e teoricamente não apresentava contraindicações ou efeitos colaterais. Até que, um tempo mais tarde, eu percebi a dependência absurda que poderia causar e a dor da abstinência, nos ossos, na carne, no peito, na alma...
Depois de aproximadamente dois anos em desintoxicação, encontrei novamente o tal mercante, mas desta vez eu sabia exatamente o que iria me custar se tomasse aquela droga de novo. Porém, vestindo agora um jaleco pomposo e carregando importantes certificados, pensei eu que a receita dele podia, desta vez, estar reformulada. Passada a semana de duração da dose, os efeitos foram os mesmos.
Lembrei então do símbolo que havia em seu jaleco, não sei agora se era o de Asclépio ou o de Hermes, mas havia nele uma ou duas serpentes, o que agora teria um novo significado pra mim. O preço? Um veneno para o sono, confiança, sorrisos e corações, além de toda a dor. Mas ouvi falar que existem também amores baratos por aí, que ‘toda e qualquer coisa’ serve como moeda de troca.  Então desta vez fui bem mais preparado e confiante para a desintoxicação, já faz mais de dois anos...

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