Era
uma vez uma casa grande, bonita, se via de longe que era muito imponente,
pujante.
Era uma casa branca, um verdadeiro palácio em um planalto… Esbanjava beleza e conforto.
Havia nela muitas portas abertas, que podiam ser observadas por quem passava do lado de fora do muro de vidro reforçado, tudo com muita transparência.
Do lado de dentro, crianças de bochechas rosadas gastavam a energia que tinham com as mais diversas brincadeiras, sem muitas preocupações, vivendo uma infância normal.
Os meninos, muito bem vestidos com coletes de lã na cor azul marinho, exploravam todos os cômodos e o quintal, que era imenso.
Já as meninas, que usavam laços cor de rosa presos nos cabelos, tinham uma linda casa de bonecas para brincarem e não reclamarem das malcriações dos meninos, ainda que isto não os impedisse de invadir o espaço delas e quebrar suas regras.
Haviam mulheres se bronzeando junto às piscinas e homens sentados em grupos, tendo sérias conversas sobre assuntos importantíssimos para o futuro da humanidade e sobre como o mundo fora dali estava se tornando um lugar perigoso.
Haviam também muitos empregados que lá trabalhavam, que passavam o dia limpando a casa, cozinhando, cuidando crianças, mantendo tudo no seu devido lugar, para só à noite voltarem para seus lares.
Parecia agradável, à primeira vista, estar dentro daquele lugar. Haviam boas comidas, bebidas, bom humor, brincadeiras, bons papos. Haviam hortas e jardins bem cuidados, com flores, frutos e lagos.
Por dentro havia muito conforto também, muitos cômodos, suítes, salas imensas, com glamourosos sofás e poltronas, que até mesmo os charmosos “pets” podiam escolher em quais repousar vez ou outra. Parecia haver paz, harmonia, acolhimento.
Bem, não foi esta a mesma sensação que tive quando, em um certo dia, fui convidado a entrar....
Certamente a casa oferecia, de fato, todos os privilégios e conforto que se podia observar de longe. Para um morador da casa não parecia tão pertinente se perguntar sobre a história de tal moradia, ou talvez não fosse tão interessante que se contasse tal história.
Para mim, curioso desde pequeno, era importante conhecer aquela casa que tanto parecia admirável, como havia sido construída, desde que época e etc. Comecei a observá-la, com a atenção de quem nunca havia vivenciado tal experiência, e estudar alguns de seus detalhes...
Atentei para o fato de haver muitos livros que aparentavam nunca ter sido tocados e muitas luzes em lindos lustres que não estavam acesos.
Dentre as peças de decoração, cabeças de veados, exibidas como troféus de caça, me chamavam a atenção. Me chamavam a atenção também os diversos objetos feitos de marfim e ouro, as pedras e os metais preciosos, assim como os inúmeros tapetes existentes na casa (“persas”, egípcios, indianos e etc).
Na calada da noite, enquanto todos estavam dormindo, sem que ninguém pudesse atrapalhar minhas observações, resolvi olhar por debaixo de tais tapetes… Olhei logo o mais próximo do cômodo onde eu estava acomodado, e havia sujeira, muita sujeira. O provável é que estivesse acumulada por séculos.
Para além da sujeira, ao limpar melhor aquele assoalho de madeira abaixo do tapete, percebi brechas, fissuras, e logo notei que se tratava de um alçapão que levava a um andar subterrâneo, um porão. Abri tal porta e de imediato senti um dos cheiros mais desagradáveis que já conheci, só podia ser cheiro de morte, um cheiro de pavor e desespero.
Ao descer os degraus percebi que os mesmos eram feitos de ossos e, ao final da escada, vi que se tratava de um espaço que era baixo, onde só se podia ficar curvado entre o chão de tal porão e o chão do assoalho da casa, o chão da casa grande era, ao mesmo tempo, o teto do porão.
Ouvi vozes que pareciam de outro mundo, que até então não escutava. Gelei. Me diziam para cavar… Assustado, hesitei. Mas as vozes me diziam que a história da casa estava ali, que eu precisava desenterrar o passado, para entender aquele presente.
Cavei um pouco, encontrei roupas, pertences e artefatos de culturas até então desconhecidas por mim. Cavei mais um pouco, minhas mãos umedeciam um tanto. Sentia como se houvesse ali, combinada ao solo, uma mescla de suor, lágrimas, peles, nervos, carnes e sangue.
Parei. Tive medo do que poderia encontrar se escavasse um pouco mais.
A noite estava fria, o ar era difícil de respirar, o estômago embrulhava, a garganta dava nó. Pensei muito, parado no lugar, sem conseguir me movimentar.
Ouvindo mais uma vez as vozes, e meus próprios pensamentos, decidi escavar uma última vez, antes de ver o dia clarear, como sempre… Senti nas minhas mãos um pouco do peso dos corpos misturados à terra.
Ossadas inteiras (de homens, mulheres e crianças) estavam fundidas às fundações da casa, sustentando a superestrutura de toda aquela suntuosa residência, onde viviam seres humanos, livres e presos.
Quando o dia clareou, um dos donos da casa, o mais velho, avistou a porta aberta de tal porão e, me olhando de cima, foi fechando-a rapidamente, me partindo ao meio quando eu já estava a escapar.
Metade de mim morreu naquele porão, metade fugiu para o mais longe possível... Para que eu pudesse, então, ouvir novamente as vozes e ajudar a expor a história até agora não tão bem contada, na esperança de que tal casa seja derrubada e eu encontre outras partes de mim mesmo, podendo estar completo novamente.

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